Todos Contra o Crime
No domingo, quem trafegava pela Linha Vermelha por volta das 8 da noite viveu uma cena que parecia ter saído dos anos 1990, época em que o Rio estava no ápice do desgoverno e da violência urbana. Na altura da Favela da Maré, balas disparadas por traficantes cruzavam a pista e zuniam por cima dos veículos, levando motoristas a parar o automóvel e, junto com passageiros, buscar proteção como podiam. Alguns se refugiaram em um batalhão da Polícia Militar à beira da pista, onde esperaram a fuzilaria arrefecer. Por sorte, os projéteis não atingiram ninguém.
A saraivada de balas não foi um incidente isolado. Desde janeiro, a Linha Vermelha já havia sido interditada catorze vezes por tiroteios, arrastões ou protestos. E essa não é a única estatística dramática da violência urbana no Rio. Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), foram cometidos no estado 2.329 homicídios dolosos de janeiro a maio de 2017, 10% a mais que no mesmo período de 2016. O roubo de cargas atingiu a maior alta em 25 anos e, nas ruas, ocorre um roubo a cada quatro minutos — em abril houve 23 mil, um recorde desde 2003.
A origem do problema, é quase consenso, está na situação de escassez de recursos que acomete a segurança pública. Entretanto, um fenômeno novo tem chamado atenção em meio a esse cenário: empresários, comerciantes e até cidadãos comuns começam a contribuir para que a polícia tenha as condições mínimas de realizar seu trabalho. Não é uma ação coordenada, mas um conjunto de iniciativas esparsas e isoladas, que ganha peso a cada dia. "Essas parcerias são uma maneira de amenizar a crise. Temos estimulado isso, desde que tudo aconteça dentro dos limites da lei e dos princípios éticos", diz o coronel Wolney Dias Ferreira, comandante-geral da PM.
Entre os bairros da cidade, a Barra da Tijuca tornou-se a principal vitrine desse tipo de colaboração. Homens de negócios se uniram a moradores e a executivos do setor hoteleiro para dar forma à Associação Comunitária Bairro Seguro (ACBS), em dezembro. O objetivo inicial era montar uma central de monitoramento que reunisse as câmeras mantidas pela prefeitura e pelos estabelecimentos comerciais e condomínios da região, repassando as informações à polícia de modo a coibir a criminalidade. Entre os apoiadores de primeira hora estavam empresários como José Isaac Peres, dono da Multiplan (proprietária do BarraShopping e do VillageMall), Carlos Carvalho, da construtora Carvalho Hosken, e Alfredo Lopes, do braço carioca da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih).
Em uma sala de 75 metros quadrados, próxima ao shopping Via Parque, dois plantonistas se revezam no monitoramento das imagens captadas por mais de 120 câmeras, em uma área que vai do Itanhangá à Barra de Guaratiba. Paralelamente, um software rastreia as redes sociais em busca de informações e relatos sobre ocorrências na região. O sistema dispara, em média, dois alertas de segurança por dia. "No Jardim Oceânico vinham acontecendo muitos assaltos a residências, mas, quando o meliante percebe que está sendo observado e que a polícia se tornou mais ágil, ele pensa duas vezes", afirma Lopes, da Abih-RJ.
O projeto, atualmente com um volume total de investimentos de quase 1 milhão de reais, já entrou em uma segunda fase. O resultado da unidade piloto foi tão bom que se decidiu implantar uma central também no 31º Batalhão da PM (Barra e Recreio), que mantém 100% das viaturas da unidade rodando graças às contribuições que custeiam a manutenção da frota.
Para melhorar as condições de segurança da cidade, nem sempre são necessárias grandes somas. Em janeiro deste ano, a Secretaria Municipal de Ordem Pública lançou um megaprojeto de segurança em parceria com a PM e a Polícia Civil. O secretário Paulo César Amêndola, ex-coronel da PM que criou o Batalhão de Operações Especiais (Bope), montou o Núcleo de Videopatrulhamento da Guarda Municipal, no 3º andar do Centro de Operações Rio (COR), iniciando um projeto-piloto de vigilância no Leme e em Copacabana. Doze guardas monitoram diariamente 46 câmeras nesse trecho, aproveitando a estrutura do COR. Até o próximo verão, haverá pelo menos mais sessenta câmeras doadas pela concessionária Orla Rio. A Guarda tem acesso ainda a dezoito câmeras na Lapa, cedidas pela iniciativa privada através do Projeto Sociedade Mais Segura (S+S).
Ações pontuais nas redondezas de empresas e moradias também produzem impacto. Diretor da rede de hotéis Arena, José Domingo Bouzon decidiu tornar a área do Arpoador menos inóspita no período noturno com uma medida simples: trocar as lâmpadas queimadas do Parque Garota de Ipanema. Com o reparo, associado a medidas de manutenção do parque feitas por funcionários do empresário durante o dia, o ar de abandono se foi. Bouzon também recuperou a Delegacia Especial de Apoio ao Turista no Leblon. "Se todo mundo ajudar um pouco, teremos um Rio melhor", afirma o executivo.
Empresas como as redes de supermercados Extra, Guanabara e Rede Economia, instituições financeiras como o Banco do Brasil e o Santander, e shoppings como o Fashion Mall, o Tijuca e o Norte Shopping se cotizam para auxiliar delegacias das zonas Norte a Sul com doações que vão de material de escritório a café, açúcar, produtos de limpeza e papel higiênico. Maior fabricante de cigarros do país, a Souza Cruz tem repassado carros e computadores usados para a polícia.
Não é incomum o fato de iniciativas como essas serem criticadas como ações que teriam como objetivo final facilitar ou melhorar as condições de negócios de seus patrocinadores. Não à toa, essa é uma das preocupações do coronel Sérgio Schalioni, comandante do 31º BPM. "Aqui, todo apoio à tropa está dentro da mais absoluta transparência, nunca envolve troca de favores nem dinheiro em espécie", afirma. Qualquer que seja o argumento contrário, ele esbarra em duas evidências: a primeira é que é possível realizar ações sólidas e transparentes dentro da mais estrita lisura legal e moral, regidas por lei e por contratos; a segunda diz respeito ao incomensurável benefício público que tais iniciativas trazem — apenas a doação de 250 motocicletas feita por José Isaac Peres, da Multiplan, fez com que a frota da Guarda Municipal se ampliasse de 79 para 329 unidades.
Outro elemento que pode dificultar o engajamento do empresariado é a busca por resultados imediatos. "Os brasileiros, em geral, não têm inclinação a uma filantropia mais sofisticada. Há falta de entendimento dos problemas e de como agir", afirma a cientista política Ilona Szabó, diretora do Instituto Igarapé, que, junto com a iniciativa privada, criou o ISP-Geo, sistema de análise de dados usado pela Secretaria Estadual de Segurança na estratégia de policiamento.
De maneira geral, os cariocas não veem os policiais como servidores confiáveis e capazes de combater o crime de forma eficaz. Os constantes escândalos de corrupção, os episódios de violência e despreparo nos embates com criminosos, além das denúncias de abusos contra suspeitos, ajudam a desgastar a imagem dos homens da lei. Entretanto, a situação da PM no estado é de absoluta precariedade, com a corporação enfrentando contínuas reduções de orçamento e de pessoal. É fato que a Polícia Militar fluminense é a que mais mata — mas seus homens são também os que mais morrem. A instituição conta, hoje, com um efetivo de 45 mil policiais, 15 mil a menos que o necessário. A maioria dos coletes à prova de balas disponibilizados aos PMs está com a validade vencida, e não há gasolina suficiente para abastecer as viaturas. Metade da frota motorizada encontra-se parada por falta de manutenção — um convênio recente com o Sindicarga devolveu às ruas alguns dos blindados.
No Bairro Peixoto, em Copacabana, moradores, empresários e comerciantes vêm estruturando um sistema de cotas para ajudar a manter o policiamento do local. No início do ano, quinze moradores se uniram para arrecadar mil reais e consertar a viatura que patrulhava a área; agora, planeja-se a cobrança de uma taxa de trinta reais para criar um fundo de auxílio aos PMs que atuam ali. "É uma questão de dignidade e respeito. Os policiais perdem um amigo por dia e estão com salários atrasados. Precisamos cuidar do ser humano e da nossa comunidade", avalia o empresário Pedro Salomão, dono da Rádio Ibiza, que mora e trabalha no bairro. Na Tijuca, 22 condomínios no entorno da Praça Afonso Pena estão votando o pagamento de cotas para instalação e manutenção de quatro contêineres que servirão de sede para os policiais, com vestiários, banheiros e ar-condicionado. Já no Leblon, o objetivo é que a população contribua para a criação do Leblon Presente, nos moldes do Lagoa Presente — projeto financiado pela Fecomércio-RJ que tem similares em outras quatro áreas da cidade: Lapa, Flamengo, Centro e Méier.
Para os cariocas, tornou-se inquestionável que os desafios impostos pela violência urbana demandam respostas articuladas, capazes de mobilizar outros setores além da polícia ou da Justiça Criminal. No mundo inteiro há exemplos de associações entre o setor público e o privado: desde 1996, a Business Against Crime South Africa, organização formada por líderes empresariais na África do Sul, trabalha com as forças da lei para aprimorar a resposta aos crimes; na Inglaterra, a entidade privada Crime Concern ajuda na redução da criminalidade desde 1988. "Sem recursos, estou fazendo o possível e o impossível para minimizar os danos. Parte significativa do meu esforço se concentra em criar um pacto nacional para desarmar os bandidos e punir com mais rigor os criminosos", afirma o secretário de Segurança do estado, Roberto Sá.
O texto original encerra a reportagem citando o samba "Saudades da Guanabara", gravado por Beth Carvalho em 1992, como metáfora do desejo de que o Rio de Janeiro ainda possa se recuperar dos tempos mais difíceis da violência urbana — uma imagem que, segundo a reportagem, segue mais atual do que nunca.
Fonte: VejaRio, 2017. Texto adaptado do material original para publicação neste site.
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